O Rouxinol e o Imperador
Sabem com certeza que na China o imperador é chinês e que todas as outras pessoas são chinesas também.
Esta história aconteceu há muitos anos, mas é precisamente por isso que devem ler agora, antes que seja esquecida.
By Jefferson Allan
O palácio do imperador era o melhor do Mundo, todo ele construído da mais rara porcelana — não tinha preço, mas era tão frágil e delicado que era preciso tomar todo o cuidado quando se andava lá dentro.
O jardim do palácio estava coberto de flores maravilhosas, nunca vistas em outro lado; as mais bonitas de todas tinham sininhos de prata, que tocavam para se saber sempre que passava alguém.
Sim, tudo no jardim do imperador tinha sido muito bem planejado, e ele estendia-se até tão longe que nem o jardineiro fazia a menor ideia onde acabava.
Se fosse sempre andando chegava-se a uma bela floresta com árvores muito altas e lagos muito fundos.
A floresta ia até ao mar, que era azul e também muito fundo; grandes navios podiam navegar mesmo por baixo dos ramos das árvores.
Nesses ramos vivia um rouxinol que cantava tão bem que até o pobre pescador, com todas as suas dificuldades, parava de deitar as redes todas as noites para o ouvir.
— Ah, que maravilha! — dizia ele.
Mas depois tinha de continuar a trabalhar e esquecia-se da ave.
Contudo, na noite seguinte, assim que o rouxinol tornava a cantar, o pescador erguia os olhos das redes e dizia mais uma vez:
— Ah, que maravilha!
Vinham viajantes de todos os países do Mundo para admirar a cidade, o palácio e os jardins do imperador.
Mas, assim que ouviam o rouxinol, todos diziam:
- Isto é o melhor de tudo!
E, quando voltavam aos seus países, continuavam a falar da ave.
Sábios escreveram livros sobre a cidade e o palácio, mas o rouxinol era elogiado mais do que todas as outras maravilhas, e poetas escreveram emocionantes poemas sobre a ave da floresta perto do mar.
Estes livros eram lidos em todo o mundo, e, um dia, alguns deles chegaram às mãos do imperador.
Lá ficou ele, sentado na sua cadeira dourada, a ler sem parar; de vez em quando acenava com a cabeça.
Estava contente com as esplêndidas descrições do seu reino.
Então, chegou à frase: "Mas, apesar de todas estas maravilhas, nada se compara ao rouxinol."
— Que é isto?! — exclamou o imperador.
— O rouxinol?
Nunca ouvi falar dele.
Imaginem!
As coisas que aprendemos nos livros!
Então mandou chamar o camareiro.
- Vi aqui neste livro que temos uma ave admirável chamada rouxinol — disse o imperador.
— Parece que é a melhor coisa do meu vasto império.
Por que é que ninguém me falou dele?
— Bem — respondeu o camareiro —, nunca ouvi ninguém falar nessa criatura.
De certeza que nunca foi apresentada na corte.
— Quero que venha aqui esta noite cantar para mim — disse o imperador.
— É uma vergonha que toda a gente saiba o que possuo e eu não!
— Nunca ouvi falar nele — repetiu o camareiro —, mas vou procurá-lo e hei-de encontrá-lo!
Sim, mas onde?
O camareiro subiu e desceu todas as escadas, andou por todos os salões e corredores, mas, de todas as pessoas que encontrou, nenhuma tinha ouvido falar do rouxinol.
Voltou apressado à presença do imperador e disse-lhe que aquilo devia ser uma história inventada pelos escritores.
— Vossa Majestade Imperial não deve acreditar em tudo o que aparece escrito.
As coisas que os autores inventam!
É mesmo magia negra!
— Mas o livro onde eu soube da ave — afirmou o imperador — foi-me enviado pelo poderoso imperador do Japão, portanto, não pode ser mentira!
Quero ouvir o rouxinol!
Quero ouvi-lo esta noite.
— Tsing-pe! — respondeu o camareiro.
E lá foi ele outra vez escada abaixo e escada acima, por todos os salões e corredores; metade da corte andava a correr atrás dele.
Por fim, encontraram uma pobre rapariguinha na cozinha.
- O rouxinol? — perguntou ela.
— Meu Deus!
Claro que sei!
Que bem que ele canta!
A maior parte das noites deixam-me levar para casa alguns restos de comida para a minha mãe, que está doente. Vivemos perto do lago, do outro lado da floresta.
E quando volto para o palácio, cansada, sento-me um bocadinho e fico a ouvi-lo cantar.
— Rapariguinha! — exclamou o camareiro —, ofereço-te um lugar permanente na cozinha e dou-te licença para veres o imperador a jantar se nos levares até ao rouxinol.
A sua presença é exigida esta noite na corte.
Então, partiram em direção à floresta onde o rouxinol costumava cantar; mais de metade da corte foi com eles. Enquanto iam andando, uma vaca mugiu.
- Oh! — exclamou um pajem.
— Já estou a ouvi-lo!
Para um animalzinho tão pequeno faz um barulho extraordinário.
Mas, sabem, tenho a certeza de já o ter ouvido.
— Não, não, aquilo é uma vaca a mugir! — exclamou a rapariguinha.
— Ainda temos de andar muito.
As rãs começaram a coaxar num charco.
- Maravilhoso! — exclamou o capelão do imperador.
— Já estou a ouvir a canção!
Parecem mesmo sininhos de igreja!
— Não, não, isso são rãs — disse a rapariguinha da cozinha.
— Mas devemos estar quase a ouvi-lo.
Então, o rouxinol começou a cantar.
- Lá está ele! — disse a rapariguinha.
— Ouçam!
Olhem!
Está ali! — e apontou para um passarinho cinzento por entre os ramos.
— Será possível? — exclamou o camareiro.
— Nunca pensei que fosse assim.
Parece tão vulgar!
Tão simples!
Talvez tenha perdido a cor quando viu todas estas visitas importantes.
— Rouxinolzinho! — chamou a rapariguinha.
— O nosso gracioso imperador gostaria muito que cantasses para ele.
— Com o maior prazer — disse o rouxinol, continuando a cantar tão bem que era um encanto ouvi-lo.
— Parecem mesmo sinos de vidro — disse o camareiro.
— Não percebo como é que nunca o tínhamos ouvido.
Vai ser um êxito na corte!
— Querem que torne a cantar para o imperador?
— perguntou o rouxinol, que pensava que uma das visitas era o imperador.
— Excelentíssimo rouxinol — disse o camareiro —, tenho a honra e o prazer de o convidar para um concerto no palácio esta noite, onde encantará Sua Majestade Imperial com as suas lindas cantigas.
— Soam melhor na floresta — afirmou o rouxinol.
Apesar disso, foi com eles de boa vontade quando ouviu dizer que era desejo do imperador.
Entretanto, que limpezas iam pelo palácio!
As paredes e o soalho de porcelana brilhavam, lustrosos, à luz de milhares de luzes douradas.
Mesmo no meio do grande salão, junto do trono do imperador, estava um poleiro dourado para o rouxinol.
Toda a corte estava presente, e a pequena criadinha da cozinha teve autorização para ficar atrás da porta, porque já tinha o título oficial de Verdadeira Criada de Cozinha.
Todos os olhos estavam postos no passarinho cinzento quando o imperador lhe fez sinal que começasse.
Então, o rouxinol cantou tão bem que o imperador ficou com os olhos cheios de lágrimas, que lhe escorreram pelas faces; e o rouxinol continuou a cantar ainda melhor, de modo que cada nota foi direitinha ao coração do imperador. Este ficou muito satisfeito; o rouxinol, declarou ele, iria receber o seu sapato dourado para usar ao pescoço.
Mas este agradeceu e recusou, porque já se sentia recompensado.
- Vi lágrimas nos olhos do imperador.
Pode lá haver alguma dádiva maior do que essa?
As lágrimas de um imperador têm um poder estranho.
Já fui suficientemente recompensado.
E cantou mais uma canção com a sua voz maviosa.
Muito espirituoso, muito divertido; a criatura é namoradeira — diziam as damas da corte, enchendo as bocas de água para fazerem um ruído de gargarejo.
Por que é que não haviam de ser também rouxinóis?
Até os lacaios e as criadas de quarto acenavam, com ar de aprovação, o que significa muito, porque estes são sempre os mais difíceis de contentar.
Não havia dúvida: o rouxinol era um êxito.
Ficaria na corte e teria uma gaiola só para si, com autorização para ir apanhar ar duas vezes durante o dia e uma vez à noite.
Seria acompanhado, em cada excursão, por doze criados, cada um a segurar firmemente uma fita de seda atada a uma patinha da ave.
Não, essas saídas não eram muito divertidas.
Um dia, chegou um grande embrulho para o imperador.
Trazia uma palavra escrita por fora: ROUXINOL.
- Olha!
Outro livro sobre a nossa famosa ave! — exclamou o imperador.
Mas não era um livro; era um pequeno brinquedo mecânico dentro de una caixa, um rouxinol de corda.
Tinha o feitio de um verdadeiro, mas estava coberto de diamantes, rubis e safiras.
Quando se lhe dava corda, cantava uma das canções que o verdadeiro passarinho costumava cantar, e a sua cauda andava para baixo e para cima, brilhando em prata e ouro.
A volta do pescoço trazia uma fita, onde estava escrito:
"O rouxinol do imperador do Japão nada vale comparado com o rouxinol do imperador da China."
- Que maravilha! — disseram todos.
E o mensageiro que tinha trazido o presente recebeu o título de Principal Portador Imperial de Rouxinóis.
Agora têm de cantar juntos.
Que dueto que vai ser!
Então os dois passarinhos tiveram de cantar juntos, mas não foi um êxito.
O problema era que o verdadeiro rouxinol cantava à sua maneira e a canção do outro saía de uma máquina.
- Isto não é vergonha nenhuma — afirmou o Mestre da Música Imperial.
— Está perfeitamente afinado: na realidade, ele até podia ser um dos meus alunos.
Então, o pássaro de corda foi posto a cantar sozinho.
Agradou quase tanto à corte como o verdadeiro, e evidentemente que era muito mais bonito à vista, todo brilhante, como uma pulseira ou um alfinete de peito.
Cantou a mesma canção trinta e três vezes sem se cansar.
Os cortesãos não se importariam de a ouvir mais umas vezes, mas o imperador achou que era a vez do verdadeiro.
Mas onde estava o rouxinol?
Tinha voado pela janela, para a sua floresta verdejante, sem ninguém dar por isso.
— Tch, tch, tch! — fez o imperador, aborrecido.
— Que significa isto?
E os cortesãos resmungavam e franziam as testas.
- Mas temos aqui o melhor! — disseram.
E o rouxinol de corda teve de cantar outra vez.
Era a trigésima quarta vez que o ouviam, mas ainda não sabiam bem a canção.
Era difícil de aprender.
E o Mestre da Música Imperial teceu à ave os mais altos elogios: era superior ao rouxinol vivo, não apenas na aparência exterior, mas também no que tinha lá dentro.
— Sabem, senhores e senhoras e, acima de todos, Vossa Majestade Imperial, com o verdadeiro rouxinol nunca se sabe o que vai acontecer, mas com a ave de corda tem-se a certeza; é tudo fácil: podemos abri-la e ver como pensa, como cada nota segue a outra com precisão!
— Era isso mesmo o que eu estava a pensar — ouviu-se aqui e ali.
E na segunda-feira seguinte, o Mestre da Música Imperial foi autorizado a mostrar publicamente o pássaro ao povo. Também ele devia ouvi-lo cantar, tinha declarado o imperador.
E assim foi.
E ficaram todos tão entusiasmados como se estivessem tontos de beberem muito chá, um antigo costume chinês. Disseram todos:
— Ah!
E levantaram os indicadores e acenaram com as cabeças.
Mas o pobre pescador, que tinha ouvido o verdadeiro rouxinol, afirmou:
— Lá bonito é... e até parece o rouxinol...
Mas parece que falta qualquer coisa, não sei bem...
O verdadeiro rouxinol foi banido do reino do imperador.
O pássaro artificial recebeu um lugar especial numa almofada de seda junto da cama do imperador; empilhados à volta estavam todos os presentes que lhe tinham dado, todo o ouro e jóias.
Foi distinguido com o título de Principal Trovador Imperial da Mesa-de-Cabeceira, Primeira Classe à Esquerda, porque até os imperadores têm o coração do lado esquerdo.
O Mestre da Música Imperial escreveu um solene trabalho em vinte e cinco volumes sobre o pássaro mecânico.
Era muito extenso e erudito, cheio das mais difíceis palavras chinesas.
Mas toda a gente fingiu que o tinha lido e compreendido.
Ninguém queria passar por estúpido!
Tudo isto continuou durante um ano, até que o imperador, a corte e o resto do povo chinês sabiam de cor cada notazinha da canção do passarinho de corda; mas, por isso mesmo, cada vez gostavam mais dela.
Podiam cantá-la em coro — e faziam-no.
Os rapazitos da rua andavam por todo o lado a cantar: e o imperador também cantava — um som maravilhoso, não havia dúvida.
Mas, uma noite, precisamente quando o pássaro de corda estava a cantar e o imperador, deitado na cama, o ouvia, qualquer coisa fez "crac!" dentro do pássaro.
O mecanismo continuou a rodar, e a música parou.
O imperador saltou da cama e mandou chamar o seu médico.
Mas de que servia o médico?
Então foram buscar o relojoeiro, e este, depois de muitas resmungadelas e mexidelas no pássaro, conseguiu arranjá-lo mais ou menos.
Mas preveniu toda a gente de que tinha de ser usado muito poucas vezes; as peças estavam quase gastas por completo e não era possível substituí-las sem estragar o som.
Que golpe horrível!
Não se atreviam a pôr o pássaro a cantar mais do que uma vez por ano, e mesmo isso já era um risco.
Contudo, nessas ocasiões anuais, o Mestre da Música Imperial fazia sempre um discurso cheio de palavras difíceis, dizendo que o pássaro estava tão bom como sempre — e, claro, uma vez que ele dizia que sim, era porque ele estava tão bom como sempre...
Passaram cinco anos, e uma grande tristeza abateu-se sobre o país.
O povo era muito amigo do imperador, mas ele estava gravemente doente e não se esperava que sobrevivesse.
Já tinha sido escolhido novo imperador, e a multidão esperava nas ruas que o camareiro lhe desse notícias.
Como estava o imperador?
O camareiro abanava a cabeça.
Frio e pálido, o imperador jazia no seu leito real.
Na verdade, a corte achava que já tinha morrido e foi a correr saudar o seu sucessor.
Os criados de quarto foram a correr coscuvilhar uns com os outros e as criadas juntaram-se todas para beberem café.
Tinham sido estendidos panos pretos em todos os salões e corredores para amortecer o som dos passos, de maneira que o palácio parecia muito, muito sossegado.
Mas o imperador ainda não tinha morrido.
Pálido e imóvel, jazia na sua magnífica cama com longos cortinados de veludo e pesados cordões dourados.
Através de uma janela aberta lá no alto, a Lua brilhava sobre o imperador e o pássaro artificial.
Pobre imperador mal podia respirar; sentia como se tivesse qualquer coisa a pesar-lhe sobre o coração.
Abriu os olhos e viu a Morte sentada sobre ele.
A Morte tinha a coroa de ouro do imperador na cabeça, numa das mãos segurava a espada imperial de ouro e na outra a esplêndida bandeira imperial.
E, por entre os cortinados de veludo, espreitavam estranhos rostos: alguns horríveis e outros belos e bondosos.
Eram as boas e as más ações do imperador, que olhavam para ele, enquanto a Morte se sentava sobre o seu coração.
— Lembras-te?
Lembras-te?
- diziam os rostos baixinho, um a seguir ao outro.
E contaram e lembraram tantas coisas que a testa do imperador acabou por ficar coberta de suor.
- Nunca soube...nunca percebi... — gritou ele.
— Música, música!
Toquem o grande tambor da China! Salvem-me destas vozes!
Mas as vozes não se calavam.
Continuavam sempre, enquanto a Morte acenava com a cabeça, como um mandarim, a tudo o que diziam.
- Música!
Dêem-me música! — pedia o imperador.
— Belo passarinho dourado, canta, peço-te que cantes!
Dei-te ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato dourado ao teu pescoço com as minhas próprias mãos.
Canta, peço-te, canta!
Mas o pássaro estava silencioso; não havia ninguém para lhe dar corda, e sem corda não tinha voz.
E a Morte continuava a olhar fixamente para o imperador com as grandes órbitas vazias.
Tudo estava calado, terrivelmente calado.
Então de repente, perto da janela, soou a mais bela canção.
Era o verdadeiro rouxinol, que se tinha empoleirado num ramo lá fora.
Sabendo do mal do imperador, o passarinho tinha voltado para o confortar e trazer-lhe esperança.
À medida que cantava, as firmas fantasmagóricas foram desaparecendo, até se desvanecerem.
O sangue começou a correr mais depressa pelo corpo do imperador.
A própria Morte ficou presa à canção.
- Canta mais, canta mais, pequeno rouxinol! — pediu a Morte.
— Canto, se me deres a grande espada de ouro... sim, e a bandeira imperial... e a coroa do imperador...
E a Morte devolveu cada um dos tesouros em troca de uma canção e o rouxinol continuou a cantar.
Cantou sobre o calmo adro da igreja onde cresciam as rosas brancas, onde as flores do sabugueiro cheiravam tão bem, onde a erva fresca está sempre verde por causa das lágrimas dos que ali choram os seus mortos.
Então, a Morte encheu-se de saudades do seu jardim e saiu pela janela, flutuando como um nevoeiro gelado.
- Obrigado, obrigado! — disse o imperador.
— Passarinho celestial, sei quem és!
Eu bani-te do meu reino e, no entanto, só tu vieste ajudar-me, e afastaste os horríveis fantasmas da minha cama e libertaste o meu coração da Morte.
Como hei-de recompensar-te?
— Já me recompensaste — respondeu o rouxinol.
— Quando cantei para ti da primeira vez caíram-te lágrimas dos olhos e essa dádiva não posso esquecer.
Essas são as jóias que não se compram nem se vendem. Mas agora tens de dormir para ficares bom e forte.
Olha, vou cantar para ti.
E cantou e o imperador caiu num sono calmo e reparador.
O Sol brilhava sobre ele através da janela quando acordou, restaurado, desaparecidas a fraqueza e a doença.
Nenhum dos criados tinha lá entrado ainda, porque todos pensavam que ele estava morto.
— Tens de ficar sempre comigo — disse o imperador.
— Mas só cantas quando quiseres.
E, quanto ao pássaro de corda, vou parti-lo em mil bocados.
— Não faças isso — respondeu o rouxinol.
— Fez o que pôde por ti.
Guarda-o.
Eu não posso morar num palácio, mas deixa-me ir e vir à minha vontade, e à noite empoleiro-me neste ramo, junto da tua janela, e canto para ti.
Hei-de trazer-te felicidade, mas também pensamentos sérios.
Hei-de cantar sobre as pessoas felizes do teu reino, mas também sobre os que se sentem tristes.
Cantarei sobre o bem e o mal, que têm estado sempre à nossa volta, mas que têm sempre escondido de ti.
Os passarinhos voam em todas as direções, até ao pescador, à casinha do trabalhador, até junto de tantos que estão longe de ti e da tua corte magnífica.
Amo o teu coração mais do que a tua coroa, apesar de a coroa ter algo de mágico.
Sim, hei-de voltar, mas tens de me prometer uma coisa.
- O que quiseres! — exclamou o imperador.
Tinha-se levantado e vestido as suas roupas imperiais e segurava a espada dourada junto do coração.
- A única coisa que te peço é isto: não digas a ninguém que tens um amigo passarinho que te conta tudo.
É melhor guardar segredo.
E, com estas palavras, o rouxinol voou para longe.
Os criados vieram ver o amo morto, mas ficaram ali especados!
(Hans Christian Andersen)
Um grande beijo no coração
Bell-Taróloga
By Jefferson Allan
O palácio do imperador era o melhor do Mundo, todo ele construído da mais rara porcelana — não tinha preço, mas era tão frágil e delicado que era preciso tomar todo o cuidado quando se andava lá dentro.
O jardim do palácio estava coberto de flores maravilhosas, nunca vistas em outro lado; as mais bonitas de todas tinham sininhos de prata, que tocavam para se saber sempre que passava alguém.
Sim, tudo no jardim do imperador tinha sido muito bem planejado, e ele estendia-se até tão longe que nem o jardineiro fazia a menor ideia onde acabava.
Se fosse sempre andando chegava-se a uma bela floresta com árvores muito altas e lagos muito fundos.
A floresta ia até ao mar, que era azul e também muito fundo; grandes navios podiam navegar mesmo por baixo dos ramos das árvores.
Nesses ramos vivia um rouxinol que cantava tão bem que até o pobre pescador, com todas as suas dificuldades, parava de deitar as redes todas as noites para o ouvir.
— Ah, que maravilha! — dizia ele.
Mas depois tinha de continuar a trabalhar e esquecia-se da ave.
Contudo, na noite seguinte, assim que o rouxinol tornava a cantar, o pescador erguia os olhos das redes e dizia mais uma vez:
— Ah, que maravilha!
Vinham viajantes de todos os países do Mundo para admirar a cidade, o palácio e os jardins do imperador.
Mas, assim que ouviam o rouxinol, todos diziam:
- Isto é o melhor de tudo!
E, quando voltavam aos seus países, continuavam a falar da ave.
Sábios escreveram livros sobre a cidade e o palácio, mas o rouxinol era elogiado mais do que todas as outras maravilhas, e poetas escreveram emocionantes poemas sobre a ave da floresta perto do mar.
Estes livros eram lidos em todo o mundo, e, um dia, alguns deles chegaram às mãos do imperador.
Lá ficou ele, sentado na sua cadeira dourada, a ler sem parar; de vez em quando acenava com a cabeça.
Estava contente com as esplêndidas descrições do seu reino.
Então, chegou à frase: "Mas, apesar de todas estas maravilhas, nada se compara ao rouxinol."
— Que é isto?! — exclamou o imperador.
— O rouxinol?
Nunca ouvi falar dele.
Imaginem!
As coisas que aprendemos nos livros!
Então mandou chamar o camareiro.
- Vi aqui neste livro que temos uma ave admirável chamada rouxinol — disse o imperador.
— Parece que é a melhor coisa do meu vasto império.
Por que é que ninguém me falou dele?
— Bem — respondeu o camareiro —, nunca ouvi ninguém falar nessa criatura.
De certeza que nunca foi apresentada na corte.
— Quero que venha aqui esta noite cantar para mim — disse o imperador.
— É uma vergonha que toda a gente saiba o que possuo e eu não!
— Nunca ouvi falar nele — repetiu o camareiro —, mas vou procurá-lo e hei-de encontrá-lo!
Sim, mas onde?
O camareiro subiu e desceu todas as escadas, andou por todos os salões e corredores, mas, de todas as pessoas que encontrou, nenhuma tinha ouvido falar do rouxinol.
Voltou apressado à presença do imperador e disse-lhe que aquilo devia ser uma história inventada pelos escritores.
— Vossa Majestade Imperial não deve acreditar em tudo o que aparece escrito.
As coisas que os autores inventam!
É mesmo magia negra!
— Mas o livro onde eu soube da ave — afirmou o imperador — foi-me enviado pelo poderoso imperador do Japão, portanto, não pode ser mentira!
Quero ouvir o rouxinol!
Quero ouvi-lo esta noite.
— Tsing-pe! — respondeu o camareiro.
E lá foi ele outra vez escada abaixo e escada acima, por todos os salões e corredores; metade da corte andava a correr atrás dele.
Por fim, encontraram uma pobre rapariguinha na cozinha.
- O rouxinol? — perguntou ela.
— Meu Deus!
Claro que sei!
Que bem que ele canta!
A maior parte das noites deixam-me levar para casa alguns restos de comida para a minha mãe, que está doente. Vivemos perto do lago, do outro lado da floresta.
E quando volto para o palácio, cansada, sento-me um bocadinho e fico a ouvi-lo cantar.
— Rapariguinha! — exclamou o camareiro —, ofereço-te um lugar permanente na cozinha e dou-te licença para veres o imperador a jantar se nos levares até ao rouxinol.
A sua presença é exigida esta noite na corte.
Então, partiram em direção à floresta onde o rouxinol costumava cantar; mais de metade da corte foi com eles. Enquanto iam andando, uma vaca mugiu.
- Oh! — exclamou um pajem.
— Já estou a ouvi-lo!
Para um animalzinho tão pequeno faz um barulho extraordinário.
Mas, sabem, tenho a certeza de já o ter ouvido.
— Não, não, aquilo é uma vaca a mugir! — exclamou a rapariguinha.
— Ainda temos de andar muito.
As rãs começaram a coaxar num charco.
- Maravilhoso! — exclamou o capelão do imperador.
— Já estou a ouvir a canção!
Parecem mesmo sininhos de igreja!
— Não, não, isso são rãs — disse a rapariguinha da cozinha.
— Mas devemos estar quase a ouvi-lo.
Então, o rouxinol começou a cantar.
- Lá está ele! — disse a rapariguinha.
— Ouçam!
Olhem!
Está ali! — e apontou para um passarinho cinzento por entre os ramos.
— Será possível? — exclamou o camareiro.
— Nunca pensei que fosse assim.
Parece tão vulgar!
Tão simples!
Talvez tenha perdido a cor quando viu todas estas visitas importantes.
— Rouxinolzinho! — chamou a rapariguinha.
— O nosso gracioso imperador gostaria muito que cantasses para ele.
— Com o maior prazer — disse o rouxinol, continuando a cantar tão bem que era um encanto ouvi-lo.
— Parecem mesmo sinos de vidro — disse o camareiro.
— Não percebo como é que nunca o tínhamos ouvido.
Vai ser um êxito na corte!
— Querem que torne a cantar para o imperador?
— perguntou o rouxinol, que pensava que uma das visitas era o imperador.
— Excelentíssimo rouxinol — disse o camareiro —, tenho a honra e o prazer de o convidar para um concerto no palácio esta noite, onde encantará Sua Majestade Imperial com as suas lindas cantigas.
— Soam melhor na floresta — afirmou o rouxinol.
Apesar disso, foi com eles de boa vontade quando ouviu dizer que era desejo do imperador.
Entretanto, que limpezas iam pelo palácio!
As paredes e o soalho de porcelana brilhavam, lustrosos, à luz de milhares de luzes douradas.
Mesmo no meio do grande salão, junto do trono do imperador, estava um poleiro dourado para o rouxinol.
Toda a corte estava presente, e a pequena criadinha da cozinha teve autorização para ficar atrás da porta, porque já tinha o título oficial de Verdadeira Criada de Cozinha.
Todos os olhos estavam postos no passarinho cinzento quando o imperador lhe fez sinal que começasse.
Então, o rouxinol cantou tão bem que o imperador ficou com os olhos cheios de lágrimas, que lhe escorreram pelas faces; e o rouxinol continuou a cantar ainda melhor, de modo que cada nota foi direitinha ao coração do imperador. Este ficou muito satisfeito; o rouxinol, declarou ele, iria receber o seu sapato dourado para usar ao pescoço.
Mas este agradeceu e recusou, porque já se sentia recompensado.
- Vi lágrimas nos olhos do imperador.
Pode lá haver alguma dádiva maior do que essa?
As lágrimas de um imperador têm um poder estranho.
Já fui suficientemente recompensado.
E cantou mais uma canção com a sua voz maviosa.
Muito espirituoso, muito divertido; a criatura é namoradeira — diziam as damas da corte, enchendo as bocas de água para fazerem um ruído de gargarejo.
Por que é que não haviam de ser também rouxinóis?
Até os lacaios e as criadas de quarto acenavam, com ar de aprovação, o que significa muito, porque estes são sempre os mais difíceis de contentar.
Não havia dúvida: o rouxinol era um êxito.
Ficaria na corte e teria uma gaiola só para si, com autorização para ir apanhar ar duas vezes durante o dia e uma vez à noite.
Seria acompanhado, em cada excursão, por doze criados, cada um a segurar firmemente uma fita de seda atada a uma patinha da ave.
Não, essas saídas não eram muito divertidas.
Um dia, chegou um grande embrulho para o imperador.
Trazia uma palavra escrita por fora: ROUXINOL.
- Olha!
Outro livro sobre a nossa famosa ave! — exclamou o imperador.
Mas não era um livro; era um pequeno brinquedo mecânico dentro de una caixa, um rouxinol de corda.
Tinha o feitio de um verdadeiro, mas estava coberto de diamantes, rubis e safiras.
Quando se lhe dava corda, cantava uma das canções que o verdadeiro passarinho costumava cantar, e a sua cauda andava para baixo e para cima, brilhando em prata e ouro.
A volta do pescoço trazia uma fita, onde estava escrito:
"O rouxinol do imperador do Japão nada vale comparado com o rouxinol do imperador da China."
- Que maravilha! — disseram todos.
E o mensageiro que tinha trazido o presente recebeu o título de Principal Portador Imperial de Rouxinóis.
Agora têm de cantar juntos.
Que dueto que vai ser!
Então os dois passarinhos tiveram de cantar juntos, mas não foi um êxito.
O problema era que o verdadeiro rouxinol cantava à sua maneira e a canção do outro saía de uma máquina.
- Isto não é vergonha nenhuma — afirmou o Mestre da Música Imperial.
— Está perfeitamente afinado: na realidade, ele até podia ser um dos meus alunos.
Então, o pássaro de corda foi posto a cantar sozinho.
Agradou quase tanto à corte como o verdadeiro, e evidentemente que era muito mais bonito à vista, todo brilhante, como uma pulseira ou um alfinete de peito.
Cantou a mesma canção trinta e três vezes sem se cansar.
Os cortesãos não se importariam de a ouvir mais umas vezes, mas o imperador achou que era a vez do verdadeiro.
Mas onde estava o rouxinol?
Tinha voado pela janela, para a sua floresta verdejante, sem ninguém dar por isso.
— Tch, tch, tch! — fez o imperador, aborrecido.
— Que significa isto?
E os cortesãos resmungavam e franziam as testas.
- Mas temos aqui o melhor! — disseram.
E o rouxinol de corda teve de cantar outra vez.
Era a trigésima quarta vez que o ouviam, mas ainda não sabiam bem a canção.
Era difícil de aprender.
E o Mestre da Música Imperial teceu à ave os mais altos elogios: era superior ao rouxinol vivo, não apenas na aparência exterior, mas também no que tinha lá dentro.
— Sabem, senhores e senhoras e, acima de todos, Vossa Majestade Imperial, com o verdadeiro rouxinol nunca se sabe o que vai acontecer, mas com a ave de corda tem-se a certeza; é tudo fácil: podemos abri-la e ver como pensa, como cada nota segue a outra com precisão!
— Era isso mesmo o que eu estava a pensar — ouviu-se aqui e ali.
E na segunda-feira seguinte, o Mestre da Música Imperial foi autorizado a mostrar publicamente o pássaro ao povo. Também ele devia ouvi-lo cantar, tinha declarado o imperador.
E assim foi.
E ficaram todos tão entusiasmados como se estivessem tontos de beberem muito chá, um antigo costume chinês. Disseram todos:
— Ah!
E levantaram os indicadores e acenaram com as cabeças.
Mas o pobre pescador, que tinha ouvido o verdadeiro rouxinol, afirmou:
— Lá bonito é... e até parece o rouxinol...
Mas parece que falta qualquer coisa, não sei bem...
O verdadeiro rouxinol foi banido do reino do imperador.
O pássaro artificial recebeu um lugar especial numa almofada de seda junto da cama do imperador; empilhados à volta estavam todos os presentes que lhe tinham dado, todo o ouro e jóias.
Foi distinguido com o título de Principal Trovador Imperial da Mesa-de-Cabeceira, Primeira Classe à Esquerda, porque até os imperadores têm o coração do lado esquerdo.
O Mestre da Música Imperial escreveu um solene trabalho em vinte e cinco volumes sobre o pássaro mecânico.
Era muito extenso e erudito, cheio das mais difíceis palavras chinesas.
Mas toda a gente fingiu que o tinha lido e compreendido.
Ninguém queria passar por estúpido!
Tudo isto continuou durante um ano, até que o imperador, a corte e o resto do povo chinês sabiam de cor cada notazinha da canção do passarinho de corda; mas, por isso mesmo, cada vez gostavam mais dela.
Podiam cantá-la em coro — e faziam-no.
Os rapazitos da rua andavam por todo o lado a cantar: e o imperador também cantava — um som maravilhoso, não havia dúvida.
Mas, uma noite, precisamente quando o pássaro de corda estava a cantar e o imperador, deitado na cama, o ouvia, qualquer coisa fez "crac!" dentro do pássaro.
O mecanismo continuou a rodar, e a música parou.
O imperador saltou da cama e mandou chamar o seu médico.
Mas de que servia o médico?
Então foram buscar o relojoeiro, e este, depois de muitas resmungadelas e mexidelas no pássaro, conseguiu arranjá-lo mais ou menos.
Mas preveniu toda a gente de que tinha de ser usado muito poucas vezes; as peças estavam quase gastas por completo e não era possível substituí-las sem estragar o som.
Que golpe horrível!
Não se atreviam a pôr o pássaro a cantar mais do que uma vez por ano, e mesmo isso já era um risco.
Contudo, nessas ocasiões anuais, o Mestre da Música Imperial fazia sempre um discurso cheio de palavras difíceis, dizendo que o pássaro estava tão bom como sempre — e, claro, uma vez que ele dizia que sim, era porque ele estava tão bom como sempre...
Passaram cinco anos, e uma grande tristeza abateu-se sobre o país.
O povo era muito amigo do imperador, mas ele estava gravemente doente e não se esperava que sobrevivesse.
Já tinha sido escolhido novo imperador, e a multidão esperava nas ruas que o camareiro lhe desse notícias.
Como estava o imperador?
O camareiro abanava a cabeça.
Frio e pálido, o imperador jazia no seu leito real.
Na verdade, a corte achava que já tinha morrido e foi a correr saudar o seu sucessor.
Os criados de quarto foram a correr coscuvilhar uns com os outros e as criadas juntaram-se todas para beberem café.
Tinham sido estendidos panos pretos em todos os salões e corredores para amortecer o som dos passos, de maneira que o palácio parecia muito, muito sossegado.
Mas o imperador ainda não tinha morrido.
Pálido e imóvel, jazia na sua magnífica cama com longos cortinados de veludo e pesados cordões dourados.
Através de uma janela aberta lá no alto, a Lua brilhava sobre o imperador e o pássaro artificial.
Pobre imperador mal podia respirar; sentia como se tivesse qualquer coisa a pesar-lhe sobre o coração.
Abriu os olhos e viu a Morte sentada sobre ele.
A Morte tinha a coroa de ouro do imperador na cabeça, numa das mãos segurava a espada imperial de ouro e na outra a esplêndida bandeira imperial.
E, por entre os cortinados de veludo, espreitavam estranhos rostos: alguns horríveis e outros belos e bondosos.
Eram as boas e as más ações do imperador, que olhavam para ele, enquanto a Morte se sentava sobre o seu coração.
— Lembras-te?
Lembras-te?
- diziam os rostos baixinho, um a seguir ao outro.
E contaram e lembraram tantas coisas que a testa do imperador acabou por ficar coberta de suor.
- Nunca soube...nunca percebi... — gritou ele.
— Música, música!
Toquem o grande tambor da China! Salvem-me destas vozes!
Mas as vozes não se calavam.
Continuavam sempre, enquanto a Morte acenava com a cabeça, como um mandarim, a tudo o que diziam.
- Música!
Dêem-me música! — pedia o imperador.
— Belo passarinho dourado, canta, peço-te que cantes!
Dei-te ouro e coisas preciosas; pendurei o meu sapato dourado ao teu pescoço com as minhas próprias mãos.
Canta, peço-te, canta!
Mas o pássaro estava silencioso; não havia ninguém para lhe dar corda, e sem corda não tinha voz.
E a Morte continuava a olhar fixamente para o imperador com as grandes órbitas vazias.
Tudo estava calado, terrivelmente calado.
Então de repente, perto da janela, soou a mais bela canção.
Era o verdadeiro rouxinol, que se tinha empoleirado num ramo lá fora.
Sabendo do mal do imperador, o passarinho tinha voltado para o confortar e trazer-lhe esperança.
À medida que cantava, as firmas fantasmagóricas foram desaparecendo, até se desvanecerem.
O sangue começou a correr mais depressa pelo corpo do imperador.
A própria Morte ficou presa à canção.
- Canta mais, canta mais, pequeno rouxinol! — pediu a Morte.
— Canto, se me deres a grande espada de ouro... sim, e a bandeira imperial... e a coroa do imperador...
E a Morte devolveu cada um dos tesouros em troca de uma canção e o rouxinol continuou a cantar.
Cantou sobre o calmo adro da igreja onde cresciam as rosas brancas, onde as flores do sabugueiro cheiravam tão bem, onde a erva fresca está sempre verde por causa das lágrimas dos que ali choram os seus mortos.
Então, a Morte encheu-se de saudades do seu jardim e saiu pela janela, flutuando como um nevoeiro gelado.
- Obrigado, obrigado! — disse o imperador.
— Passarinho celestial, sei quem és!
Eu bani-te do meu reino e, no entanto, só tu vieste ajudar-me, e afastaste os horríveis fantasmas da minha cama e libertaste o meu coração da Morte.
Como hei-de recompensar-te?
— Já me recompensaste — respondeu o rouxinol.
— Quando cantei para ti da primeira vez caíram-te lágrimas dos olhos e essa dádiva não posso esquecer.
Essas são as jóias que não se compram nem se vendem. Mas agora tens de dormir para ficares bom e forte.
Olha, vou cantar para ti.
E cantou e o imperador caiu num sono calmo e reparador.
O Sol brilhava sobre ele através da janela quando acordou, restaurado, desaparecidas a fraqueza e a doença.
Nenhum dos criados tinha lá entrado ainda, porque todos pensavam que ele estava morto.
— Tens de ficar sempre comigo — disse o imperador.
— Mas só cantas quando quiseres.
E, quanto ao pássaro de corda, vou parti-lo em mil bocados.
— Não faças isso — respondeu o rouxinol.
— Fez o que pôde por ti.
Guarda-o.
Eu não posso morar num palácio, mas deixa-me ir e vir à minha vontade, e à noite empoleiro-me neste ramo, junto da tua janela, e canto para ti.
Hei-de trazer-te felicidade, mas também pensamentos sérios.
Hei-de cantar sobre as pessoas felizes do teu reino, mas também sobre os que se sentem tristes.
Cantarei sobre o bem e o mal, que têm estado sempre à nossa volta, mas que têm sempre escondido de ti.
Os passarinhos voam em todas as direções, até ao pescador, à casinha do trabalhador, até junto de tantos que estão longe de ti e da tua corte magnífica.
Amo o teu coração mais do que a tua coroa, apesar de a coroa ter algo de mágico.
Sim, hei-de voltar, mas tens de me prometer uma coisa.
- O que quiseres! — exclamou o imperador.
Tinha-se levantado e vestido as suas roupas imperiais e segurava a espada dourada junto do coração.
- A única coisa que te peço é isto: não digas a ninguém que tens um amigo passarinho que te conta tudo.
É melhor guardar segredo.
E, com estas palavras, o rouxinol voou para longe.
Os criados vieram ver o amo morto, mas ficaram ali especados!
(Hans Christian Andersen)
Um grande beijo no coração
Bell-Taróloga